sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Carros Voadores

Já perto das onze horas, a marginal apresentava-se com pouco transito. O que dava jeito, por que estava a chover intensamente e não me estava a apetecer ter de fazer o slalom do costume. Os enlatados circulam em excesso de velocidade, como sempre fazem, absolutamente indiferentes às condições meteorológicas.

Ia concentrado na condução. Os pneus Continental melhoram a tracção em piso molhado e sinto-me um bocado mais estável na scooter. Mas é uma mudança do terror absoluto para um medo intenso: ainda vou em alerta total quando conduzo a Indiana à chuva. O capacete estava a embaciar um bocadinho, coisa que não costuma acontecer. Estou a meditar sobre a necessidade de levantar um pouco a viseira quando um movimento anormal uns metros à frente capta a minha atenção.

Na curva seguinte, nas faixas contrarias, dois automóveis colidem, enviando um deles contra o separador de um palmo de altura, que não o detém. Ele salta para cima dos carros à minha frente, atingindo um e continuando o seu voo até embater com muita violência no muro do Centro Náutico.

Nos momentos seguintes parece que o mundo parou. Só a chuva continua a cair.

O condutor de um carro atingido à minha frente saí da viatura danificada, visivelmente combalido, e vai para o passeio. Na faixa contraria, outro condutor tenta retirar o seu Mitsubishi do meio da estrada, sem grande sucesso. Parece não saber que tem o eixo da frente partido. Em cima do passeio, levantado contra o muro, com todos os airbags insuflados, os passageiros de um Opel muito deformado permanecem dentro do carro. Surgem inúmeras pessoas, a maioria vindos do centro náutico. Algumas correm para o carro mais maltratado, procurando ajudar as pessoas. O transito começa a acumular e ouvem-se as primeiras buzinadelas, impacientes.

A chuva não abranda. Concluo que não estou ali a fazer nada a não ser expor-me a mais perigos. Arranco, contornando aquela carnificina. No caminho que me resta, sou ultrapassado por inúmeros carros a alta velocidade, provavelmente tentando compensar o tempo que perderam lá atrás. Ninguém parece tirar nenhuma lição do que acabou de testemunhar, os excessos continuam. Até à próxima vez.

4 comentários:

Pedro disse...

Cum caraças!!!

Mto elucidativa a frase:
"(...)Nos momentos seguintes parece que o mundo parou. Só a chuva continua a cair.(...)"

Brilhante descrição, Bessa!

Castanheira disse...

Sei bem do que falas... passei na Marginal cerca das 12:30 e vi a carrinha Astra batida de ambos lados e mais à frente o casal idoso do Mitsubishi à espera de reboque. Do lado oposto um pouco antes (para quem vem Lisboa) um Ibiza desfez a frente junto ao restaurante Casa da Dízima. Realmente, esta malta não aprende mesmo a andar com diferentes condições de aderência. É o que dá carros novos que filtram tudo via sistemas de conforto e segurança (mas que não fazem milagres) e condutor nem sente as fraca aderencia, quando sente é tarde demais... Não dá para contornar as leis da física!

MOTARTE disse...

A máxima, só acontece aos outros, persiste...

Mau momento, mas excelente relato, Bessa!

Rui Tavares disse...

Presenciar essas situações não só nos deixa triste por percebermos que continua a haver pouco cuidado nas estradas, como nos assusta a possibiliade de nos vermos envolvidos nelas.
Cuidado, muito cuidado.