domingo, 26 de agosto de 2007

Fenómeno Sazonal?

Ando realmente surpreendido com o número de scooters e motos que tenho encontrado nas ruas de Lisboa, nos meses mais recentes. Bem sei que com a chegada do bom tempo, há sempre uma série de "motocas" que sacodem o pó das suas máquinas e vêm para a rua, de chinelinho no pé, sacar cavalos, passar vermelhos e soltar rateres. Ou seja, dar mau nome aos utilizadores sérios e regulares das duas rodas. Mas mesmo excluindo este acontecimento sazonal, um fenómeno já conhecido, dou por mim a cruzar-me com muitas mais motos e scooters que aquilo que estou habituado. Há por exemplo um número muito apreciável de Vespas. Será uma moda? Será o principio de algo? Será que estamos finalmente no bom caminho?

A Scoopy do Cretáceo Superior

É difícil reconstruir o percurso das scooters Honda que receberam o cognome "Scoopy". Principalmente porque essa é uma designação comercial, e não foi utilizada em todos os países por igual, por opções de estratégia de marketing ou talvez porque a palavra soava como um palavrão em algumas línguas (como o Fiat UNO em Finlandês ou o Mitsubishi Pajero em Castelhano). Até agora não consegui escrever a "história" do modelo, mas sei que muito antes de se tornar a rainha de vendas em Itália, na versão 125-150, existiram diversos modelos de roda alta, com 50cc e mais, que levavam o nome de "Scoopy".

Por isso, não fiquei muito espantado quando encontrei este exemplar numa conhecida praia em Portugal. Está bem usado, mas parece (e estava) perfeitamente funcional. Digno de se chamar clássico talvez?..

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Sobram peças!

A verdade é que tenho demasiado tempo livre.

Como os senhores da Santomar não me arranjaram a mota como eu queria, resolvi tratar eu mesmo de resolver o problema da indesejada sinfonia dos plásticos. Eu tinha motivação, eu tinha ferramentas, eu tinha a vantagem de cobrar pouco a mim próprio pela mão de obra. Eu não fazia era ideia de como começar...


Não levei muito tempo a decidir que o painel todo do guiador tinha que sair. Mas para o libertar, tive que tirar também o de baixo... À volta do guiador há um emaranhado de cabos e fios, não sobra muito espaço. Depois de desligar as fichas, não foi difícil perceber o que se passava: além dos 4 parafusos, tudo aquilo é mantido no sítio por uma série de encaixes de plástico, daqueles que dão um estalido... Depois de 20.000 km de ruas esburacadas, e recentemente, muito empedrado, é claro qua alguns dos contactos estavam partidos. Havia folgas impossíveis de arranjar, só trocando a peça toda. Curiosamente, tudo o que era mecânico parecia em muito bom estado, as peças da Honda inspiram confiança. Mas e os plásticos, que fazer? A sinfonia diária andava a dar-me cabo do juízo.


Bom, como não me apetecia desistir, estive a reforçar com fita adesiva (serve para tudo!) o interior da caixa do farol, nos sítios que entravam em contacto com o outro lado (do guiador). Usei também esponja autocolante que se usa para evitar que portas e armários batam onde não devem. Para finalizar, "amarrei" quase literalmente a parte de plástico a uma zona metálica do guiador, através de dois pares de furos que existem debaixo da caixa do farol não sei muito bem para que propósito...



E pronto. Parece (e é!) um trabalho muito amador, mas a verdade é que consegui (duas horas e meia depois) voltar a pôr tudo no sítio, certifiquei-me que as luzes e comandos funcionavam e, tcham tcham: nada de ruídos parasitas! Um silêncio divino para os meus ouvidos!



Infelizmente este trabalho deixou-me também com a ideia de que as scooters, todas elas, estavam condenadas a falecimentos precoces, provocados não pelo inevitável desgaste mecânico, ou pelo normal decorrer de milhares e milhares de quilómetros, mas pela destruição prematura das suas dispendiosas carapaças de plástico. Para dormir descansado, prefiro pensar que não é bem assim, que a minha pobre montada já caiu várias vezes (só uma comigo) e já tem uns aninhos. A minha mãe sempre me disse que é feio generalizar dessa forma.

De pequenino...

... se parte o focinho. Pelo menos é por esse caminho que as coisas vão. Não estão a perceber, eu sei. O tema é: "Escolas de condução". A Marta (a minha better half) está a tirar a carta de motociclos, precisamente um ano depois de mim. No caso dela é aqui. Amanhã tem a primeira aula de condução, e disse ao instrutor que tinha um casaco próprio para motociclismo (parecido com o meu Bering) e que iria trazê-lo. A resposta do Sr. Instrutor foi dizer-lhe qualquer coisa no sentido que isso não faziam falta nenhuma, porque está muito calor e além disso a aula era com ele e portanto tudo ia correr bem... A Marta logo lhe deu a entender que levava o casaco na mesma e ainda teve de ouvir que ela era "daquelas que preferem apanhar com o calor a ficar com uns arranhões"

Mas que mentalidade marialva é esta? Não devia ser o instrutor o primeiro a incutir hábitos de segurança? A informar sobre o material de protecção necessário, para além do obrigatório? Se não há esta consciência nem nas escolas de condução, há onde? Nos motoclubes? Assim não vamos lá.

domingo, 19 de agosto de 2007

Sintra ride

Que fazer num feriado a meio da semana? Estava calor, mas não o suficiente para a praia. Era demasiado tarde quando saímos da cama para grandes programas, e estávamos muito molengas para fazer desporto. A solução? Um passeio de scooter até Sintra!



Ok, o vídeo não tem som e foi filmado por uma Olympus que já está a pedir reforma, mas não resisti a incluir este pedaço de história cinematográfica.

Pelo caminho apanhámos bastante trânsito, parece que muita gente tinha tido a mesma ideia que nós e a volta só se tornou agradável quando deixámos a confusão das estradas principais (a Marginal ou N6, estrada do Guincho, etc) e entrámos nos recônditos caminhos da Serra. Antes houve ainda tempo para umas brincadeiras, como as fotos seguintes, feitas pela Marta:



Sim, sou eu! Algures depois da Malveira da Serra. Pareço maior do que pensava em cima da pobre Scoopy... Estes momentos "kodak" foram muito divertidos, por alguns instantes parecia um ensaio da Motociclismo. Mas o nosso destino era Sintra, e só voltámos a parar quando nos vimos rodeados de paisagens como esta:


Enfim livres! De poluição, de enlatados e confusões. Infelizmente livres do calor também, porque o famoso microclima da zona de Sintra fez-se sentir de imediato e a temperatura baixou uns dez graus ou assim... Não fazia mal, enquanto eu me entretinha com a fotografia, a Marta desapareceu por uns instantes, para voltar a surgir com uma mão cheia de amoras silvestres. Para minha surpresa, estavam realmente deliciosas!

Rumámos a um pequeno miradouro e depois à zona dos Capuchos. Havia pouca gente por ali, pessoal do BTT e alguns turistas. Aquela tranquilidade a que a zona nos habituou mantinha-se e ainda bem. Mas quando começámos a descer para a vila de Sintra, o cenário mudou. Enlatados a subirem pela estrada impetuosamente, a maioria deles a fazer as curvas descaradamente fora de mão, porque vinham demasiado depressa, pessoas por todo o lado, muitos turistas, o caos habitual com o estacionamento, filas por todo o lado... Por momentos estivemos para desistir do planeado lanche na vila, mas tudo acabou por se compôr. A Scoopy ultrapassou os engarrafamentos com a elegância habitual e acabámos a repôr energias num cafézinho no centro. Sintra retém o seu encanto.


Pronto, não resisti a mais um clipzito...

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Tempo de revisão


Ando a pensar trocar a scoopy. A sério. Começa a parecer pequena, quero uma coisa que permita escapadelas extra-urbanas de fim de semana, sem tanto risco como sucede agora. Mas apesar destas ideias, que a realidade da carteira vai arrefecendo, chegou a hora de mais uma revisão. Com 19,944 km no marcador, a Honda lá recolheu às origens, à Santomar. Infelizmente o serviço deixou a desejar, além de ser caro, como costumeiramente. Sim, 135.32 Euro por mudar o óleo e o líquido de refrigeração e dar uma afinação nos travões parece-me MUITO caro. A somar a isso, pela segunda vez ignoraram completamente as minhas anotações sobre os barulhos no guiador (um dos inconvenientes de uma moderna scooter de "plástico"). Depois do trabalho que dá conseguir lá marcação, aquilo mais parece um restaurante da moda... Não penso lá voltar, e quando chegar a hora de trocar de scooter também não ponho lá os pés. Duvido que dêem pela minha falta, afinal o problema da Santomar é igual ao de muitos outros em Portugal: são vítimas do próprio sucesso. Têm demasiadas vendas para o serviço de assistência que têm montado, mas é normal, o importante é vender, o resto logo se vê...

Como saldo de um dia sem scooter, ficam também muitos minutos perdidos à espera de transporte público (e tive boleia também, senão...), várias caminhadas a pé (dessas não desgosto) e um gasto total de 3.95 Euro em metro e autocarro. Hum, isso dava para uma semana de gasolina para a scooter, se eu não saísse de Lisboa. Bem, parece que não preciso de rever as minhas escolhas!

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O INEM de Scooter

Foto: INEM

Já tinha visto as motos a circular por Lisboa. Normalmente são motos de trail, como o caso da foto, ou ocasionalmente sooters, como uma Honda Jazz que já encontrei várias vezes. A scooter japonesa parece-me particularmente adaptada a este trabalho em cidade, é muito manobrável e tem uma imensa capacidade de carga. Estes meios oferecem vantagens óbvias na rapidez da prestação de cuidados urgentes, mas são ainda uma novidade, um projecto experimental.

Hoje tive oportunidade de ver uma destas unidades em acção, mesmo aqui perto de casa. Um indivíduo estava deitado no chão, aparentemente embriagado, mas poderia ser algo mais grave. A unidade de socorro que chegou ao local era constituída por um elemento do INEM, montado numa Yamaha XT 600 com muito bom aspecto. Sem dúvida que estes meios, além da utilidade para o desempenho das suas funções, aumentam a visibilidade dos veículos de duas rodas, perante o público em geral. Pode ser que ajudem a acabar com alguns preconceitos que ainda subsistem por cá contra as scooters, motas e os seus utilizadores.


Para mais informação dêem uma olhada neste artigo do Destak ou neste texto do próprio INEM.

domingo, 12 de agosto de 2007

Armadura nova

Sejamos claros, as scooters não têm qualquer tipo de segurança passiva. Não é pela posição de condução, a existência de um escudo para as pernas ou mesmo de uma terceira roda (no caso da Piaggio MP3) que estamos mais seguros em caso de acidente. Se formos contra o chão, uma parede ou um automóvel, vamos quase de certeza ter lesões. O Papel da nossa indumentária é justamente proteger-nos o mais possível desses impactos. E também, claro, da chuva, do vento, dos insectos, de pequenas pedras projectadas, do sol, etc. Nem a roupa nem o capacete nos vão salvar a vida se formos a 120 km/h contra uma parede, mas só o facto de, por exemplo, vestir umas calças de ganga em vez de uns calções de praia, pode ser a diferença entre um susto e uma cicatriz para o resto da vida, se cair numa rotunda com óleo, mesmo à saída de casa...

Eu admito que tenho sido um pouco relaxado com a segurança, como circulo normalmente só em cidade, acho suficiente a combinação habitual de capacete jet (pequeno...), calças de ganga e um blusão de pele sem protecções. Depois de uma viagem maior, de que ainda falarei um dia destes, fiquei com outro apreço pelo equipamento de protecção: tenho agora um capacete modular para deslocações maiores e finalmente comprei esta semana a peça mais importante, um bom blusão:
Infelizmente, no cinzento mercado português, não existe equipamento apropriado exclusivamente para scooters, como noutros países, e temos que nos contentar com material de motociclismo. Nada contra em termos de protecção, infelizmente os modelos, desenhos e as cores disponíveis por cá deixam algo a desejar, para quem conhece a gama, por exemplo, destes senhores.

Mas voltemos ao meu blusão Bering: infelizmente é todo preto, mas tem linhas brancas reflectoras, nos braços e nas costas, protecções nos ombros, cotovelos e costas e um forro de inverno extraível. O material sintético não parece tão resistente como a pele, não tem tão bom aspecto e parece, pelo que tenho visto, que não vai ficando mais bonito com o tempo, pelo contrário. Ainda me estou a acostumar a ele, mas é confortável e pode vir a ser muito útil, embora eu espere reformá-lo daqui a uns anos sem nenhum estrago. Era bom sinal.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Ataque do justiceiro enlatado




Situação recorrente: via com dois sentidos, uma só faixa para cada sentido, longa fila de trânsito à minha frente, automóveis parados por causa de um semáforo. A outra faixa está livre, ultrapasso a vinte ou trinta km/h até chegar ao semáforo ou retomo a minha faixa se vier algum veículo em sentido contrário.

Até aqui tudo bem, nada disto é incorrecto ou ilegal, a menos que exista um traço contínuo ou outra situação mais específica. O que sucede é que por vezes o automobilista que fica imediatamente atrás de mim quando retomo a minha mão parece ficar enraivecido, não sei se por estar farto de esperar numa fila, dentro de um veículo chato, fechado, caro e poluidor ou se algum "Motard" lhe terá roubado a namorada nos tempos da escola. O certo é que muitas vezes sou brindado com arranques furiosos, apertões e comportamentos irresponsáveis de todo o tipo. Poder-se-ia pensar que esses tempos do total desrespeito pelas duas rodas já lá iam, mas temo que não seja assim.

Ainda há poucos dias, em Linda-a-Velha, um sujeito bem vestido, com um fato clarinho de verão, dentro de um Toyota Yaris, depois de eu ter efectuado uma ultrapassagem como a que descrevo acima, resolveu dar largas às suas (muitas) frustrações e começou a tentar colocar-se a meu lado para me empurrar para a faixa contrária. Fui surpreendido pela manobra, até porque tinha tido o cuidado de retomar a minha faixa suavemente, para não "assustar" ninguém, deixando muito espaço entre mim e o tal Yaris. Mas este fulano tinha a sua própria agenda a cumprir e toca de atirar o carro para cima de mim, com acelerações ruidosas e travagens in extremis . O Yaris balançava de um lado para o outro nos meus retrovisores, enquanto eu tentava manter o meu lugar na faixa e ao mesmo tempo não ser atingido por aquele vingador enlatado. Arrisquei travar um pouco, na esperança que ele não fosse louco o suficiente para me bater por detrás. Assim foi, e quando o motor do Toyota perdeu rotação, eu rodei o punho e consegui colocar uma distância razoável entre nós, sendo que no cruzamento a seguir eu fui por um caminho e o Sr. vítima de road rage seguiu por outro. Só quando tudo isto já tinha passado é que fui tomado de uma grande fúria eu próprio, e uma vontade que controlei a custo de encontrar de novo aquele justiceiro do asfalto e mostrar-lhe a resistência e bons acabamentos das minhas luvas... Mas que se pode fazer, nesta terra sem lei, se um scooterista ou motociclista perde a cabeça é ele (ou ela!) que fica mal, em todos os sentidos. E de resto, com o que se vê por aí, eu ia andar aos murros todos os dias, várias vezes por dia!

terça-feira, 31 de julho de 2007

De scooter para a praia

Já tinha pensado nisso. Acabou por ser ontem. Por fim fui para a praia de scooter, depois do trabalho.

Ainda no Domingo tinha meditado na utilidade das scooters também neste tipo de utilização. Estava na Praia Grande e vi-me rodeado de motociclos por todos os lados, Vespas modernas, ao lado de Kymcos e Keeways de 50cc aos montes, mais DT’s novas e velhas, umas Maxiscooters (Piaggio X9, MP3, Yamaha Majesty, Suzuki Burgman, etc) e doses muito razoáveis de motas Honda e Yamaha utilitárias. Espalhadas havia também modelos mais aristocráticos: BMWs e desportivas “RR” de origem diversa. Havia também um número muito saudável de bicicletas espalhadas pela praia. Parecia que tinha recuado no tempo, o rácio de coisas de duas rodas/coisas de quatro rodas nunca me pareceu tão equilibrado. Era uma espécie de viagem no tempo, o regresso a um passado não tão distante em que nem todos estavam ainda rendidos à adoração de O Grande Deus-Carro. Os proprietários dos infindáveis enlatados pagavam aliás caro o seu comodismo, com longas esperas tanto para aceder à zona da praia como para conseguir depois de lá sair, com o risco acrescido de levarem uma recordação para casa na forma de mossas e marcas novas na viatura, como me foi comentado e em poucas horas no local pude de facto constatar.

Resolvi pois aproveitar também mais esta vantagem de ter uma scooter e decidi ir para a Costa da Caparica, mais a Marta, a minha namorada, apanhar um pouco de Sol. Achámos que seria mais pitoresco ir de barco e fomos a Belém apanhar o tradicional Cacilheiro. A viagem pela marginal só foi ensombrada pela infeliz presença dos habituais camiões-aceleras. Enfim em Belém descubro que não há ferries para a Trafaria, só os Cacilheiros normais. Mas há, graças às obras que impedem que aportem no Cais do Sodré, ferries para Cacilhas. Assim andámos um pouco para trás e depois compensámos o atraso com um agradável passeio pela margem Sul, quase com sabor a pequena viagem, principalmente porque não conhecíamos aquelas paragens, habituados que estávamos a utilizar a via rápida da Costa, que desta vez decidimos evitar. Passámos no Cristo Rei, vimos umas casas interessantes, zonas de habitação bem tranquilas que nem pareciam estar às portas de Lisboa. Tivemos ainda oportunidade de nos cruzarmos com um scooterista montado numa inconfundível Piaggio MP3, que teve direito a acenos espontâneos de aprovação de parte de nós os dois.


Na praia naturalmente evitámos todas a confusões e arrumámos a Scoopy bem perto do acesso pedonal, onde havia neste caso somente dois outros motociclos. A praia estava cheia, mesmo muito cheia e parecia que onde quer que nos deitássemos ficávamos praticamente ao colo de alguém... Depois, com o pôr do Sol, rumámos ao centro da Caparica, deixámos a scooter em cima de um passeio onde não estorvava ninguém e fomos aos caracóis. Alguns petiscos depois, já tarde, mas ainda na presença de um calor abafado, atravessámos o Tejo pela ponte, tranquilamente, e em pouco mais de vinte minutos estávamos em casa. Nada mau para um dia de semana...

sexta-feira, 27 de julho de 2007

O estado a que chegámos

Dizia o personagem de Salgueiro Maia no filme Capitães de Abril: "há o estado comunista, o estado capitalista e há o estado a que chegámos..." Era esse estado a que o país tinha chegado em 1974 a que ele se propunha dar um fim. Pois este é o estado a que chegou Lisboa. E não há quem lhe ponha um fim.

Não estou recenseado ainda na capital, mas se pudesse participar, não faço ideia em quem poderia ter votado nas recentes eleições. Nenhum, nenhum candidato falou de alguma coisa que me parecesse ser um projecto credível, exequível , para os problemas de fundo da cidade. Nenhum mencionou mais que um ou dois lugares comuns sobre mobilidade e qualidade de vida. Só Carmona Rodrigues, conhecido motard, falou em medidas, poucas, que podiam vir ao encontro das expectativas dos utilizadores das duas rodas. Mas Carmona já esteve dois anos à frente da câmara e nesse tempo nada fez para, por exemplo, desmontar as famigeradas bandas amarelas na rua da Junqueira (que aliás ele próprio apadrinhou), remover um metro que fosse dos carris de eléctrico desactivados, ou abrir mais corredores BUS e permitir o seu uso pelas motas e scooters. Porque havíamos de acreditar que isso iria fazer alguma coisa agora?

Dos outros candidatos... Telmo Correia, também utilizador ocasional das duas rodas, disse umas coisas simpáticas à Motociclismo (edição 195), mas todos os outros candidatos também disseram à revista o que pensavam que os seus leitores/eleitores queriam ouvir, e nenhuma dessas medidas foi divulgada em outros meios de comunicação social como sendo prioritária ou mesmo como fazendo parte do programa do/a candidato/a.

O vencedor, António Costa, ainda foi o que mesmo à Motociclismo menos disse sobre as duas rodas serem parte da solução e não do problema. Umas palavras vagas sobre "melhorar os transportes públicos" e "reforço da fiscalização do estacionamento" foi tudo o que lhe consegui ouvir sobre mobilidade urbana durante a campanha. E apoiar a implementação da directiva europeia 91/439/CEE favorecendo o uso de pequenos motociclos na cidade? Criar lugares de estacionamento para motos? (sendo que actualmente é quase ilegal estacionar um motociclo em Lisboa: ou é em cima do passeio ou se ocupa um lugar da EMEL). E a já mencionada eliminação de carris de eléctrico? E a abertura de mais corredores BUS, abertos também a motociclos? Nada. Rien. Nem vou falar em tapar os buracos, melhorar a sinalização, construir ciclovias... Utopias... Lamentavelmente prevejo portanto mais (pelo menos) dois anos do mesmo. Espero que ao menos se resolvam os problemas financeiros da autarquia, pode ser que daqui a uma década alcancemos o patamar em que os nossos vizinhos europeus se encontram, já que essa parece ser a medida do nosso atraso crónico.

Condução segura - Filmes

Para os iniciados, e não só, aqui ficam uns pequenos filmes elucidativos sobre segurança e condução de scooter. Falam de pormenores que nas escolas de condução nunca se mencionam. Estes clips do You Tube estão em castelhano, infelizmente por cá estamos ainda longe de produzir filmes realmente úteis de segurança rodoviária. Fica um pequeno glossário para os mais castelhano-chalenged:

Azeite: óleo
Abrochar: apertar, ajustar
Baches: buracos
Casco: capacete
Frenada, Frenos : travagem, travões
Passo de Zebra: passadeira (para peões!)
Peatones: peões

Filme 1

Filme 2

Filme 3

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Estão a tentar matar-me!

É essa a ideia que nos vem à cabeça quando, com a tinta da licença ainda fresca, nos lançamos de scooter (ou de moto) na confusão de Lisboa. Há uma década que conduzo automóveis e é preciso ser autista ou muito artista para não dar conta do rol de distracções, transgressões, abusos, e manifestos casos de "Chico-espertismo" que fazem das nossas estradas um autêntico campo de batalha. Mas os humanos adaptam-se a tudo, e com o tempo acabamos por considerar quase banal o pior que nos possam atirar.

Mas isso é assim enquanto temos à nossa volta pára-choques, chapa, zonas de deformação programada, airbags, cintos com pré-tensores... No dia em que, pela primeira vez, sem ser em aulas, sem ser no exame, sem ser no parque de estacionamento, me lancei (legalmente por fim!) no trânsito de uma louca sexta feira em hora de ponta, nos arredores da capital... o que senti foi isso mesmo: "esta gente está a tentar matar-me!"

Encontrei mais tarde, em inúmeros fóruns, a mesma experiência, a mesma sensação, mencionada por muitos principiantes nestas lides. No fundo é natural. Os automobilistas na verdade não querem matar-nos, ou melhor, é-lhes completamente indiferente se morremos ou não, desde que isso não os faça perder tempo. Eles estão muito ocupados a escolher CDs, estações de rádio, a falar ao telemóvel, a comer o pequeno almoço ou o lanchinho da tarde, a fazer a barba, retocar a pintura dos lábios, discutir com o pendura ou com os miúdos, regular o assento, usar o GPS, ou mesmo, como é comum ver-se na A5, ler o jornal ou utilizar um PDA ou portátil. Com tanta actividade quase se esquecem de conduzir. E o que vale é que os carros quase se conduzem sozinhos e são "seguros". Mas em cima de uma scooter de dois metros de metal e plástico, com tão só 130 kg de peso, a sensação é muito diferente. Segurança passiva não há, e a segurança activa depende em grande medida das nossas capacidades, ou falta delas, no caso de um recém encartado. Nestes primeiros tempos, tenho poucas oportunidades para gozar a sensação de liberdade, o prazer de sentir o ar fresco na cara, e mil coisas que, como disse alguém, não preciso mencionar a quem conhece e nunca conseguirei explicar a quem nunca experimentou.

Sim, ao princípio o que me ocupa é o condutor do carro da frente que trava sem razão, o que muda de faixa (para cima de mim!) sem olhar, os peões que atravessam em qualquer sitio e de qualquer maneira, os taxistas suicidas, o automobilista que atravessa duas faixas de repente e nos barra o caminho por que viu um lugar para estacionar do outro lado da avenida, os que que querem fazer corridas no semáforo, porque ficam despeitados com o facto de uma "vespa", que custa três mil euros, arrancar mais depressa que o "TDI" pelo qual se endividaram em trinta mil... Uma distracção, uma só, e não há chapa amolgada, há lesões. É preciso experiência para lidar com isso.

terça-feira, 24 de julho de 2007

La Podrerosa

Não recordo a primeira vez que a vi. Gostava de poder dizer que sim, e este texto iria por um caminho mais romanceado, enquanto eu narraria, com entusiasmo, como me lembrava perfeitamente de cada pormenor, cada ínfimo detalhe desse nosso primeiro encontro.

Mas não.

Era somente a scooter de uma amiga minha. E enquanto eu tirava a licença de motociclos, a pobre Honda SH 125 “Scoopy”, amarrada a um banco público, servia apenas para ganhar sujidade e garantir a diversão da garotada do bairro. A proprietária tinha agora o local de trabalho demasiado longe para a viagem diária numa 125cc, e procurava um novo destino para a fiel montada. E assim, por um preço de amigo, a Honda mudou de mãos e tornou-se “La Podrerosa”. Este título ganhou-o da Marta, a minha namorada, e está relacionado com o facto de a mota exibir marcas de algumas quedas e a popularidade que tinha na altura entre nós o filme de Walter Salles.

Para os mais técnicos, a SH 125 é uma scooter automática de rodas altas (16 polegadas à frente e atrás) movida por um motor de 125 cc, refrigerado por líquido.

É um modelo algo desconhecido no nosso país, onde quase tudo o que tem duas rodas já de si é uma raridade, mas em Itália e Espanha, por exemplo, a Scoopy está a substituir as velhas e saudosas vespas como o modelo mais popular de scooter. Mais informação e características técnicas aqui, e aqui. (Em Italiano e Francês)

Os primórdios

Já entrado nos trintas, deu-me para isto.

Seria uma precoce crise de meia idade? Uma moda passageira? Uma tentativa não muito longe do desespero de reviver aventuras nunca conseguidas numa idealizada adolescência? Um problema hormonal? Ou talvez fosse só o reflexo de um inconformismo militante, quando não irritante, de fazer diferente, de ser pouco convencional: “se todos andam de carro, eu não ando!”. Estas e outras interrogações (ou mais provavelmente nenhuma em absoluto) afligia a mente sofisticada dos meus amigos e conhecidos nesse final de verão de 2006. Estava a tirar a carta de moto, depois de uma década como titular de uma licença da nossa República que me autorizava a pilotar coisas de quatro rodas. Por quê? Enfim, porque sim. Sempre o tinha querido fazer, e por uma razão ou outra tinha adiado os planos. De repente, a morar no centro de Lisboa e com algum tempo livre, a ideia de tirar a licença e comprar uma scooter parecia fazer todo o sentido...